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A conquista de maio

10, janeiro, 2017
Valton de Miranda Leitão

Psicanalista

O primeiro de maio foi inicialmente considerado como feriado e dia do trabalhador pela Rússia em 1920. O mês de maio já era emblemático desde 1886, quando um protesto de trabalhadores em Chicago foi violentamente sufocado. Na ocasião, os trabalhadores lutavam pela redução da jornada de trabalho de 16 para oito horas, tendo conseguido seu intento depois de sangrentos embates em quase todo o planeta.

O mundo assistiu simultaneamente à ascensão de duas classes que se antagonizam no interior da sociedade capitalista: a burguesia e o operariado. Dessa práxis histórica nasce o marxismo, que através de Marx e Engels teoriza o processo econômico e sócio-histórico dentro do qual se desenrolaram revoluções socialistas, contrarrevoluções burguesas, golpes de Estado até alcançarmos o arranjo democrático atual.

A crise estrutural do capitalismo é tão profunda na atualidade que nenhum grande pensador tem mais a ousadia de defender a proposta neoliberal. No entanto, o mercado capitalista avança impetuosamente, apoiado pela mídia internacional que pretende naturalizar essa nova forma de violência, na qual o planeta é destruído juntamente com o ser social.

As organizações de trabalhadores, os partidos operários e socialistas surgidos dentro desse processo histórico atualmente são apenas uma sombra projetada do passado. Os sindicatos de trabalhadores, nesse percurso, foram cooptados ou enfraquecidos pelo ordenamento político-jurídico do sistema capitalista mundial. A organização imagético-virtual determina uma espécie de amnésia sociocultural, fazendo com que o operariado esqueça sua origem, enquanto a classe burguesa sequer reconhece que nasceu da Revolução Francesa.

Nesse desmantelo globalizado, a população mundial é entretida com brinquedinhos eletrônicos que o gênio de Steve Jobs produziu. O operariado iludido passa a acreditar que a salvação está em algum delírio religioso ou na radicalização democrática, esquecido de que jamais recebeu nada gratuitamente. Essa é a verdadeira visão marxiana, que sindicatos, partidos e intelectuais de esquerda já não lembram.

A mídia capitalista do lema da Revolução Francesa apossou-se da palavra liberdade, enquanto tenta se apossar de outras duas palavrinhas mágicas: ética e corrupção. A condenação da classe dominante, que gerencia o capital global, não está sendo feita pelos partidos de trabalhadores, mas pelo caos do mercado como aconteceu recentemente na Suíça.

Nesse contexto, burguesia e operariado, apresentam deformações de caráter decorrente da ideia de que nenhum outro mundo é possível. De um lado o individualismo ganancioso com sua crença irrefletida na tecnologia informacional, e do outro a apatia que se abriga no delírio das religiões alternativas. O pensamento político socialista parece esquecido de que a maior corrupção é gerada pelo imperativo categórico do lucro. Disso decorre que o ethos social não pode ser estabelecido pela classe dominante e sua mídia, mas pela luta permanente por verdadeira liberdade, igualdade e fraternidade.

Por Valton de Miranda Leitão
valtonmiranda@gmail.com
Psicanalista

Este artigo reflete as opiniões do(s) autor(es), e não necessariamente da Delegacia Sindical do Ceará. Esta Delegacia Sindical não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizada pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.