CINEMA É (MAIS QUE) A MAIOR DIVERSÃO - Coluna nº 5
13, maio, 2010Olá, pessoal,
Retorno, com prazer, a este espaço, para falar sobre cinema, depois de uma considerável quarentena, cujos motivos não vale a pena relembrar.
A parada me faz pensar sobre o formato da coluna, tendo planejado uma série de modificações para torná-la mais dinâmica e agradável à leitura; por fim, optei por uma idéia, qual seja, a de não adotar um modelo fixo.
Claro que continuarei a falar de diretores, de filmes e de movimentos que influenciaram a linguagem do cinema no mundo, que constituem a própria essência da coluna; no entanto, a cada publicação, os temas serão tratados de uma maneira distinta, sem o engessamento de um formato preestabelecido.
Gostaria muito de receber mensagens com críticas e sugestões sobre o conteúdo do espaço, visando o seu aprimoramento.
Um abraço,
Luis Nóbrega.
ARGENTINA 2 X 0 BRASIL
24 anos depois de ganhar o Oscar de melhor filme estrangeiro (1986), com A História Oficial, de Luis Puenzo – belo filme versando sobre o seqüestro e a adoção de filhos dos desaparecidos políticos da “Guerra Suja” dos anos 1970 – a Argentina voltou a abocanhar o mesmo “caneco” em 2010, agora com O Segredo de Seus Olhos, dirigido por Juan José Campanella, bem conhecido entre nós por O Filho da Noiva, Clube da Lua e O Mesmo Amor, A Mesma Chuva.
Como não vi (mas morro de vontade de fazê-lo), reproduzo abaixo trecho de interessante comentário de quem viu e opinou (Silvio Zaleski - 17/03/2010):
“Que belo filme! Um filme que conseguiu reunir os gêneros romance, policial, drama e pitadas de comédia com piadas bem sacadas e humoradas.
O filme traz consigo um forte apelo a ideais românticos: amor, justiça, amizade, solidariedade, ética. Os argentinos mostram que ainda têm suas dores não curadas e diferente de nós, não tratam de colocar a sua sujeira debaixo do tapete. Aqui se acusa quem clama por justiça de revanchista ou radical de esquerda revolucionário. Os argentinos demonstram claramente o que pensam de quem em nome da ordem jogou na lata de lixo a dignidade humana. O final do filme deixa isso bem claro. Não é a toa que o filme em questão levou as salas de cinemas argentinas mais de 3 milhões de pagantes. Esse filme, como muitos outros argentinos, retrata a sua alma, a sua luta, olha para o futuro sem esquecer o seu passado. Talvez seja por isso que fazem melhores filmes, nós acreditamos tanto na violência que os nossos filmes mais aclamados são os que a temática é a violência.
Não posso também deixar de citar a beleza de Soledad Villamil, que é encantadora.
Um filme imperdível.”
Pelo andar da carruagem, parece que vamos ter que esperar o seu lançamento em dvd para termos acesso à obra, enquanto o Espaço Unibanco (no Centro Cultural Dragão do Mar) é tomado, cada vez mais, pelo cinema comercial. Fazer o quê?
DOIS FILMES
1. A ONDA
Produção alemã de 2008, assisti A Onda, de Dennis Gansel, por uma oportuna sugestão do colega Luiz Carlos, da DRF/Fortaleza.
(É uma refilmagem, com o mesmo título, de uma produção estadunidense de 1981, feita para a TV, dirigida por Alexander Grasshoff).
Trata-se de uma vigorosa história – baseada em fatos reais, ocorridos na Califórnia em 1967 e adaptados para a Alemanha dos dias de hoje – na qual um professor de História, para ministrar aulas sobre autocracia, propõe um experimento que explique na prática os mecanismos do fascismo e do poder aos seus alunos do nível médio.
O grupo rapidamente assimila comportamentos autoritários, e o “jogo” aos poucos vai saindo do controle do professor, redundando em um final trágico.
É um interessante estudo sobre o comportamento das pessoas que, sob o comando de um líder carismático, podem desenvolver aspectos autoritários de sua personalidade, o que foi muito bem trabalhado pelas lideranças nazi-fascistas da primeira metade do século XX, com nefastas conseqüências para a humanidade.
Confira-se trechos do discurso do professor ao final da película, o que sintetiza o objetivo do experimento:
“Vocês trocaram sua liberdade pelo luxo de se sentirem superiores. Todos vocês teriam sido bons nazi-fascistas. Certamente iriam vestir uma farda, virar a cabeça e permitir que seus amigos e vizinhos fossem perseguidos e destruídos. O fascismo não é uma coisa que outras pessoas fizeram. Ele está aqui mesmo em todos nós. (…). Nossa experiência foi um sucesso. Terão ao menos aprendido que somos responsáveis pelos nossos atos. Vocês devem se interrogar: o que fazer em vez de seguir cegamente um líder? E que pelo resto de suas vidas nunca permitirão que a vontade de um grupo usurpe seus direitos individuais.(…)”.
2. TREM DA VIDA (França/Itália/Alemanha, 1974).
Sinopse: “Em 1941, um vilarejo na Europa Ocidental recebe o alerta de que os nazistas estão chegando para deportar todos os judeus. Quem dá a notícia é Schlomo, o bobo da aldeia, que é o único capaz de sugerir uma saída: os próprios habitantes irão forjar um trem nazista, interpretando eles mesmos os alemães, os maquinistas e os deportados. Antes da chegada dos verdadeiros nazistas, o trem parte com destino à Terra Prometida. Tudo vai conforme planejado, exceto pelo fato de que as encenações começam a ficar cada vez mais realistas. Os nazistas se tornam mais autoritários; os deportados começam a tramar uma rebelião contra seus falsos algozes, e outros se declaram comunistas, querendo lutar contra os fascistas, os burgueses e os imperialistas”.
Novamente, o tema do autoritarismo é mostrado, agora de uma forma sutil e até bem-humorada, fazendo-nos lembrar de como nós somos suscetíveis a incorporar esse mal em nossas relações diárias, dependendo das circunstâncias.
Vencedor de inúmeros prêmios em todo o mundo, O Trem da Vida é um dos melhores filmes dos últimos tempos sobre o Holocausto. Tanto que teria servido de inspiração para Roberto Benigni realizar A Vida É Bela.
Luis Nóbrega (nobregaluis@ig.com.br)
UMA OBRA-PRIMA
ENSAIO SOBRE GRACILIANO RAMOS (Alagoas, 1993), de Walter Firmo.
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