Nota de falecimento
31, maio, 2021A DS/Ceará manifesta seu mais profundo sentimento de pesar pelo falecimento do AFRF aposentado Sálvio Medeiros Costa, que nos deixou no último dia 21/05/2021; e, como reconhecimento de sua trajetória de irrestrita intersecção no terreno dos justos, transcrevemos trecho da tese aprovada no CONAF do ano 2000, que presta a devida homenagem à memória de um cidadão com sensibilidade coletiva peculiar.
No CONAF do Rio de Janeiro, em 2000, aprovou-se a tese do Trabalho Limpo.
O exemplo trazido à tona, talvez o melhor deles, para conhecimento geral, é o do ex-secretário Sálvio Medeiros Costa, no desfecho da grande greve de 94, que durou 9 longos meses, e que chegara a um impasse na crise da parabólica do ministro Ricúpero.
Sálvio teve que conduzir o difícil processo de negociação do fim da greve com o ex-ministro Ciro Gomes, nos últimos meses do governo Itamar Franco.
A ordem superior era liquidar o movimento paredista da categoria. Os portos e aeroportos encontravam-se abarrotados.
O ex-secretário e AFRF, Sálvio Medeiros Costa, simplesmente inverteu a lógica repressiva. Fez a "opção moral" de que falava Hannah. Recusou-se inteiramente a reprimir a categoria.
Insistiu na única saída: negociação imediata com a participação direta do Ministro. Mais de uma vez colocou o cargo à disposição, porque não faltaram na equipe econômica quem defendesse a repressão ampla.
Exatamente o caso do então presidente do BC Pedro Malan. Sálvio não reprimiu sequer um único AFRF. Ao contrário.
Experimentado e sereno, também sabia que o status organizacional da SRF estava em jogo.
Martelou insistentemente que as reivindicações eram urgentes para o funcionamento da SRF.
O gabinete ministerial só se abriu porque Sálvio pôs sua cabeça a prêmio em favor de uma solução compartilhada.
O resultado foi a criação de uma Comissão Mista, através da Portaria Ministerial N.º 509, de 28 de setembro de 1994. A questão salarial foi resolvida integralmente.
Sálvio está naquele compartimento da memória do comando de greve de 94, aonde ficam guardados os grandes companheiros da categoria, que foram capazes de, ao mesmo tempo que não traíam as suas convicções pessoais, não traíram seus companheiros e souberam ser leais ao interesse público até o fim.
Isso porque, não fora o equacionamento favorável da crise, seu sucessor não teria podido sequer dar o primeiro passo dentro da organização, porque esta encontrar-se-ia em pé de guerra, e não pacificada como de fato Sálvio a deixara.
Lembremo-nos do CONAF de 2000, que aprovou a tese do TRABALHO LIMPO, do qual extraímos o seguinte teor da conclusão:
"O governo de FHC, em nenhum momento, incorporou a prática deixada pela experiência da concepção de propostas compartilhadas. Ao contrário, sempre tratou com solene desprezo as iniciativas e pretensões da categoria, na mais absoluta conformidade com o paradigma neoliberal, que tem como um dos seus pressupostos reduzir ao rés-do-chão a legitimidade e a importância dos sindicatos no contexto decisório". "Exceto quando alguns sindicalistas se prestam à prática neopelega ou se deixam cooptar em troca de migalhas, ou funções de confiança, que são oferecidas à tripa forra".
A propósito, aqui convém recuperar outra enorme contribuição do CONAF 2000, que demonstrou a necessidade de combater a "pistolagem administrativa", com base nos seguintes argumentos: "a banalização do mal não é somente a atenuação da indignação contra a injustiça e o mal, mas, também, o processo que, de um lado, desdramatiza o mal – quando este jamais poderia ser desdramatizado – e, por outro lado, que mobiliza progressivamente um número crescente de pessoas a serviço da execução do mal, fazendo delas seus "colaboradores".
Certamente, muitos que colaboram com o mal, caso refletissem a propósito do sofrimento e do medo e sobre os efeitos perversos dos atos que praticam, talvez não consentissem em fazê-lo. Acontece que, ao julgarem que a responsabilidade de seus atos cabe aos superiores – na base do manda quem pode e obedece quem tem juízo - os colaboradores do mal procuram justificar o próprio delito na sua consciência através de uma razão : "é meu dever, o cargo é de confiança!".
Através desse tipo de lógica, o mal é racionalizado e o administrador resolve a colaboração com a maldade lá no interior da sua consciência. À época do terror, amparados por portarias e ordens de serviço, os crimes contra a humanidade, não eram considerados crimes pelos nazistas.
O extermínio das criaturas, entretanto, só foi possível, porque os colaboradores do mal acomodaram o delito macabro em suas consciências, por meio da lógica cínica e sinistra: o princípio da obediência devida aos superiores.
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